14 abril 2018

Não me Prometa Nada

Putz, era mentira...


Sabe quando você é criança e pede alguma coisa que seus pais não podem ou não querem comprar no momento? Existe uma estratégia, eles dizem: "Vamos em tal lugar primeiro e depois a gente volta e compra". Eu não sei o que acontece na cabeça das crianças em geral, mas eu marcava aquilo na minha mente e ficava esperando a hora de voltar e comprar o objeto desejado. E quando eu percebia que se tratava de uma mentira eu me frustrava e ficava triste.

Ontem um amigo disse que viria à minha casa às 7h da manhã me ajudar a resolver um problema. Às 7:22h eu já estava frustrada e com raiva pela palavra quebrada. Eu achava que tinha problemas com falta de pontualidade, mas cheguei à conclusão que nem sempre sei diferenciar uma promessa concreta de uma estimativa abstrata e quando alguém me diz que vai fazer alguma coisa, eu guardo as exatas palavras embrulhadas lindamente dentro de expectativas exageradas. Eu sei muito bem que as pessoas às vezes falam à toa que vão fazer alguma coisa, eu mesma faço isso quando alguém me convida pra uma festa por exemplo. Eu digo "Ah ta, vou ver", mesmo sabendo que não vou. Eu aprendi a fazer isso pois me disseram que é rude dizer um não na cara, de tão desabituadas que as pessoas estão de ouvirem uma verdade pelada. Sim, pois essas lorotinhas são a roupa bonita que colocamos numa verdade pra ela ficar "feia arrumadinha".

Um outro ângulo dessa questão é quando alguém me promete algo e eu já sinto na hora que a pessoa não tem intenção de cumprir. Isso não deixa de ser frustrante e até um pouco constrangedor, pois às vezes a pessoa simplesmente não tem coragem de assumir o que realmente quer fazer e joga uma mentira no ar como uma cortina de fumaça. Então chego à conclusão que a minha questão não é somente por às vezes demorar para entender a mentira, mas pela quebra da expectativa de poder confiar nas pessoas.

Eu me sinto meio infantil tendo esse tipo de reação e por não ter me adaptado até hoje a esse habito cultural tão comum. Mas, por outro lado fico pensando se não seria mais correto e responsável pensar um pouco melhor nas promessas que fazemos e parar de jogar palavras ao vento como se elas não valessem nada.

12 abril 2018

Eu Não Gosto de Viajar

 Já faz um tempo que viajar muito se tornou sinal de status. Vira e mexe ouço algum comentário do tipo: "Fulana troca de carro todo ano, mas não viaja pra lugar nenhum, o que que adianta?" Não sei se é um detalhe importante a acrescentar, mas eu não tenho carro e NEM viajo pra lugar nenhum. Mas, voltando ao assunto, as pessoas realmente valorizam esses momentos em que elas passam alguns dias fora da cidade, e quanto mais longe melhor. Chego a pensar que eu talvez seja a única pessoa nesse mundo que ouse dizer que não gosta de viajar. É, eu não gosto.

 O primeiro e maior motivo certamente é que eu tenho uma condição que se chama cinetose, ou seja, eu passo MUITO mal ao ficar mais de 15 minutos dentro de um veículo em movimento. Dependendo do motorista, eu começo a ficar enjoada logo nos primeiros metros. Acho que eu ficaria rica se ganhasse 5 centavos a cada pessoa que me diz que isso é psicológico ou que é só questão de costume. Mas, pra mim, trata-se de uma tortura ficar horas dentro de um ônibus, carro ou avião e os remédios que vendem aqui no Brasil não costumam me ajudar muito.

Ainda assim, suponhamos que eu queira muito conhecer algum lugar e aceite enfrentar as horas de tortura e a expectativa de muito vômito. E, finalmente chego no destino. Aí eu me vejo num lugar diferente, com cheiros diferentes, com comidas diferentes, com pessoas diferentes, com energia diferente do que estou acostumada. Isso tirando o risco de me perder se sair sozinha, pois eu tenho dificuldade em gravar caminhos. Claro que é gostoso, eu sou muito curiosa e adoro descobrir coisas novas, mas eu demoro mais tempo que o normal pra me adaptar e fico muito cansada nos primeiros dias. Além disso, sempre aparece alguém querendo ir pra outro lugar próximo, visitar tal praia, ir no shopping. Isso significa mais horas passando mal dentro de um veículo, menos tempo pra respirar e me adaptar ao ambiente. E é isso, uma eterna tortura e cansaço com alguma paisagem bonita nos intervalos. Juro que nunca fiz uma viagem que fosse diferente desse padrão. E, já que é assim, ficar em paz na minha casa e ainda economizar uma grana pra mim é muito melhor.

Porém, voltando ao assunto do primeiro parágrafo, viajar é supervalorizado e eu me sinto meio tristinha por não ter estórias legais e fotos divertidas sobre viagens como todo mundo. E eu realmente gosto muito de conhecer coisas novas. Gostaria muito arranjar um meio de poder viajar de forma mais "suave", respeitando meus limites. O difícil é arranjar alguém pra fazer isso comigo se nem a minha família me entende. Sei que parece bobagem, mas uma coisa que me traz esperança é o avanço da tecnologia de carros sem motorista, já que dirigir sozinha em estradas parece estar ainda mais distante da minha realidade. Esperemos.

10 abril 2018

A Chave

Às vezes eu sentia raiva ou medo ou outra emoção intensa e então automaticamente dizia pra mim mesma: hey, não precisa sentir isso, veja melhor essa situação... ou talvez seja melhor pensar em outra coisa, olhe esse pensamento aqui...

Desde quando faço isso? Talvez eu tenha aprendido com meus pais que me distraiam após um tombo ou numa crise de birra, porque é isso que se faz com bebês. Acontece que essa é a forma mais eficaz e sutil de bloquear sentimentos e desfazer da minha percepção frente às situações. Pois se eu sempre digo pra mim que não devo sentir dor, que logo vai passar, eu estou desqualificando o modo como meu ser reage às situações dolorosas. E esse método não é tão eficaz quanto parece, pois reprimir a dor é o mesmo que engoli-la inteirinha e deixar a indigestão pra depois. Quando será esse depois não importa, tudo que queremos é que o bebê pare de gritar em nossos ouvidos. Posso dizer que passei minha vida toda adiando esse depois e minha criança interior nunca parou de chorar. 

Até que um dia eu decidi experimentar sentir com o corpo todo uma emoção difícil. Fiquei olhando pra ela evoluir dentro de mim e se debater contra as paredes do meu corpo. Eu não disse nada a ela, não falei como deveria se comportar nem se era pertinente ou tola. Só senti e acolhi. Não foi fácil e demorou o que pareceu uma eternidade. Mas chegou um momento em que a emoção achou o lugar dela dentro de mim e ali ela se aconchegou. E foi como uma luz desfalecendo... Então eu percebi que podia pensar na situação que trouxe a emoção com uma certa distância e objetividade. Foi só isso. Tão simples... E demorei tanto pra chegar nessa ação, que bem poderia ser uma brincadeira de criança. 

09 abril 2018

Femina x Feminismo e o Ranço




Ontem eu estava no Facebook e apareceu na minha timeline uma pessoa dizendo que odeia mulheres feministas e ama as femininas; fiquei pensando nesse conceito nojento de feminilidade, que significa algo que agrada homens por ser seu oposto. E aproveitei pra olhar dentro de mim, para o ranço que eu mesma alimento sobre essa ideia e tudo que comumente é associado a ela, como maquiagem, salto alto, frufru, frescuras e muito rosa. Percebi que eu também nutria a mesma imagem rasa a respeito de "ser feminina" e que nunca me dei a chance de pensar nisso de forma profunda.

Afinal, o que significa DE VERDADE ser feminina? Todos nós conhecemos mesmo que inconscientemente as polaridades que regem esse mundo, feminino x masculino é uma delas, mas ao contrário do infeliz senso comum, nascer mulher não significa ser a face extrema do feminino. Vice-versa para os homens. Porem nós nascemos e somos criados para representar papéis desequilibrados baseados na diferença de gêneros, como se eles fossem duas polaridades opostas. E daí nascem esses conceitos equivocados de feminilidade. Na verdade o que a pessoa do Facebook provavelmente quis dizer é que ama mulheres em desequilíbrio, que são passivas e acham que são o oposto de homens e inferiores a eles. E chamou isso erroneamente de "mulher feminina".

O verdadeiro significado do feminino em nós, segundo meu entendimento, é a não necessidade de destruir nada nem ninguém, a atitude de ternura e amor para com os seres, principalmente aqueles que precisam de cuidado e proteção. Logo, o homem equilibrado também é feminino. Na verdade eu não vejo porque as pessoas devam ser diferenciadas pelo seu sexo, que é importante quado se trata de reprodução e só. Sim, temos diferenças anatômicas, mas, a meu ver, elas só são evidentes devido ao modo como a sociedade é construída. Nós somos rudes ainda e muito materialistas, não aprendemos a usar as forças da intuição, inteligência e espiritualidade. Isso é um sinal de atraso, hoje eu sei disso e esse entendimento foi importante para minha auto-estima enquanto mulher. Nesse planeta as coisas ainda são construídas pelos braços mais fortes de homens e com isso não podemos competir. Mas o progresso aponta para dependermos cada vez menos da força bruta e isso não é por acaso. Chegará o dia em que os homens e mulheres verão a vantagem em equilibrar seu lado feminino e masculino pois compreenderão que opostos são invenções infantis e inúteis.

07 abril 2018

Nuvens no meu céu

Uma vez eu li ou ouvi uma pessoa ligada ao budismo dizer que os pensamentos e sentimentos são como nuvens e que o céu atrás delas é o nosso verdadeiro eu. Na época não dei muita bola para essa metáfora, mas esse dias fiquei me observando durante uma crise e percebi que eu reajo às energias que as pessoas direcionam a mim, mesmo sabendo que essas energias dizem respeito à própria pessoa e não ao meu valor. Por exemplo, se alguém me trata com grosseria, significa que a pessoa é grossa e não necessariamente que eu sou um lixo e mereço ser tratada mal. Eu sei disso, mas mesmo assim eu sinto as energias como pedradas e elas machucam e criam feridas que demorar pra sarar. O perdão é imediato, mas dói assim mesmo e continua doendo. Mas acabam sarando e tudo volta ao normal, muitas vezes eu me sinto até melhor depois que cicatriza. Percebi então o paralelo como a metáfora budista: As energias que vem de fora criam nuvens no meu céu e não raro eu esqueço quão azul ele é, mas essas nuvens acabam virando chuva e eu adoro aqueles dias depois da tempestade, o ar parece mais limpo e tudo brilha. Eu tenho me culpado há algum tempo por ser "reativa", mas percebi que não adianta muito focar em impedir as nuvens de se formarem, mas ter a paciência necessária pra esperar o ciclo hídrico se completar.

05 abril 2018

Prefácio

Eu sempre considerei que aqui não existem quatro estações no ano, mas não posso ignorar que em setembro os ipês florescem e as manhãs são de uma mistura especial de sol, vento e os últimos resquícios do frio. Acontece muito comigo de sentir coisas que não consigo chamar de nenhum nome; essas manhãs me trazem um desses sentimentos inomináveis, uma sensação profunda e misteriosa que parece ser só minha. É como se o vento gelado entrasse dentro de mim e tocasse a minha alma ao mesmo tempo que o sol. Por isso eu decidi chamar esse espaço de Último Frio do Ano. Significa que é algo meu, íntimo e tão peculiar que não tem classificação conhecida. Talvez seja ingenuidade minha querer isso, mas eu gostaria que minhas palavras servissem pra aquecer corações de pessoas de alma sensível e delicada como a minha. Escrever é terapêutico e só isso deveria bastar, mas criar expectativas é um vício meu.

Prefácio

Eu sempre considerei que aqui não existem quatro estações no ano, mas não posso ignorar que em setembro os ipês florescem e as manhãs são de...