Desde quando faço isso? Talvez eu tenha aprendido com meus pais que me distraiam após um tombo ou numa crise de birra, porque é isso que se faz com bebês. Acontece que essa é a forma mais eficaz e sutil de bloquear sentimentos e desfazer da minha percepção frente às situações. Pois se eu sempre digo pra mim que não devo sentir dor, que logo vai passar, eu estou desqualificando o modo como meu ser reage às situações dolorosas. E esse método não é tão eficaz quanto parece, pois reprimir a dor é o mesmo que engoli-la inteirinha e deixar a indigestão pra depois. Quando será esse depois não importa, tudo que queremos é que o bebê pare de gritar em nossos ouvidos. Posso dizer que passei minha vida toda adiando esse depois e minha criança interior nunca parou de chorar.
Até que um dia eu decidi experimentar sentir com o corpo todo uma emoção difícil. Fiquei olhando pra ela evoluir dentro de mim e se debater contra as paredes do meu corpo. Eu não disse nada a ela, não falei como deveria se comportar nem se era pertinente ou tola. Só senti e acolhi. Não foi fácil e demorou o que pareceu uma eternidade. Mas chegou um momento em que a emoção achou o lugar dela dentro de mim e ali ela se aconchegou. E foi como uma luz desfalecendo... Então eu percebi que podia pensar na situação que trouxe a emoção com uma certa distância e objetividade. Foi só isso. Tão simples... E demorei tanto pra chegar nessa ação, que bem poderia ser uma brincadeira de criança.
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