10 abril 2018

A Chave

Às vezes eu sentia raiva ou medo ou outra emoção intensa e então automaticamente dizia pra mim mesma: hey, não precisa sentir isso, veja melhor essa situação... ou talvez seja melhor pensar em outra coisa, olhe esse pensamento aqui...

Desde quando faço isso? Talvez eu tenha aprendido com meus pais que me distraiam após um tombo ou numa crise de birra, porque é isso que se faz com bebês. Acontece que essa é a forma mais eficaz e sutil de bloquear sentimentos e desfazer da minha percepção frente às situações. Pois se eu sempre digo pra mim que não devo sentir dor, que logo vai passar, eu estou desqualificando o modo como meu ser reage às situações dolorosas. E esse método não é tão eficaz quanto parece, pois reprimir a dor é o mesmo que engoli-la inteirinha e deixar a indigestão pra depois. Quando será esse depois não importa, tudo que queremos é que o bebê pare de gritar em nossos ouvidos. Posso dizer que passei minha vida toda adiando esse depois e minha criança interior nunca parou de chorar. 

Até que um dia eu decidi experimentar sentir com o corpo todo uma emoção difícil. Fiquei olhando pra ela evoluir dentro de mim e se debater contra as paredes do meu corpo. Eu não disse nada a ela, não falei como deveria se comportar nem se era pertinente ou tola. Só senti e acolhi. Não foi fácil e demorou o que pareceu uma eternidade. Mas chegou um momento em que a emoção achou o lugar dela dentro de mim e ali ela se aconchegou. E foi como uma luz desfalecendo... Então eu percebi que podia pensar na situação que trouxe a emoção com uma certa distância e objetividade. Foi só isso. Tão simples... E demorei tanto pra chegar nessa ação, que bem poderia ser uma brincadeira de criança. 

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